domingo, 4 de setembro de 2011

Estruturas Clínicas - Neurose, Psicose e Perversão


A temática “Estruturas Clínicas” data dos anos 40 e seu estudo vai nos fornecer alguns elementos para pensar a questão do “diagnóstico estrutural”.
Os termos neurose, psicose e perversão têm um sentido específico e próprio na Psicanálise, não se expressam da mesma forma na Psicopatologia, onde são descritos como entidades mórbidas. Para a Psicanálise são estruturas de funcionamento da linguagem, ou seja, modos de subjetivação do ser falante, modos de inscrição da cria humana no universo simbólico, ou se usarmos o termo um tanto mais sofisticado falaríamos das possibilidades de entendimento do processo chamado “Antropogênese” (refere-se ao surgimento e evolução da humanidade - quer dizer um conjunto de ocorrências e fenômenos pelo qual a cria humana se inscreve na tessitura social como um animal simbólico). Isso significa que os termos neurose, psicose e perversão, na Psicanálise, que não trabalha com o contínuo normal/patológico, querem dizer, antes de mais nada, caminhos, escolha subjetivas.
A Estrutura Psíquica é uma organização: ela possui um conjunto ordenado de elementos, onde há uma regra, uma ordem (uma estrutura nunca pode ser pensada em termos de caos), tem um princípio de racionalidade, é dinâmica e tem funções e propriedades que se articulam.
O psiquismo portanto é uma estrutura pensada em termos de lugar e isto está colocado por Freud (cap. VII, livro V- “A Interpretação dos Sonho”) quando ele afirma que vai pensar o psiquismo a partir de um modelo ideal, em termos de imagens. Nesse momento ele está propondo uma estrutura. Este lugar que é pensado em termos da estrutura psíquica não é um lugar qualquer, quando Freud foi denominar a estrutura psíquica ele usou a palavra TÓPICA (tópica vem tópikós em grego que quer dizer lugar).
Os textos freudianos descrevem na Primeira Tópica (no modelo de 1900) – os sistemas Inconsciente, Pré-Consciente e Consciente. São sistemas que funcionam, que se articulam, por isso mesmo podem ser pensados como uma estrutura. Na Segunda Tópica, aparece no livro “O Eu e o Isso”, onde aponta três instâncias (o Eu, o Isso e o Supereu). Na releitura de Lacan nós poderíamos pensar o Real, o Simbólico e o Imaginário como uma tópica.
Para que possamos definir esse lugar temos que usar a idéia de trans/formação. Se nós pegarmos um texto freudiano vamos ver que num dado momento Freud diz que uma representação, dependendo de uma determinada soma de excitação, pode fazer parte do pré-consciente, do inconsciente ou da consciência. Quer dizer, se você investir, desinvestir, ela (a representação) vai mudar de estado, mas a representação seria a mesma. Então a idéia é essa: conhecidas as propriedades nós podemos pensar em transformação. Podemos pensar a partir dessa noção em termos de espaços diferenciados. O inconsciente, pré-consciente e consciente são espaços diferenciados, regidos por leis e propriedades próprias (processo psíquico primário, processo psíquico secundário, princípio do prazer, princípio da realidade). A mesma leitura podemos fazer em relação ao Isso – Eu - Supereu, cada um tem suas características próprias. Então podemos pensar o psiquismo em termos de espaço, movimento e uma lógica interna. Essa é a idéia de estrutura: quer dizer, seria a possibilidade de se passar de um lugar a outro, mas essa passagem implica sempre “transformação”. Quando se fala de estrutura psíquica estamos falando de funções, sistemas, relações, articulações e quando Freud rompe com esse contínuo normal e patológico ele vai propor a idéia de que todos nós nos humanizamos a partir da constituição de uma estrutura psíquica. Essa estrutura é virtual, tal qual é a estrutura das linhas de quebradura de um cristal.
A inscrição da cria humana no universo simbólico, é o momento constitutivo dessa estrutura. A partir daí existem duas possibilidades, uma delas desdobrada em 3 alternativas:
Primeira possibilidade: Não inscrição no universo simbólico. Não constituição de uma estrutura. Nessa primeira possibilidade, a cria humana não se inscreve no universo simbólico, então não há estrutura.
Segunda possibilidade: em se dando a inscrição no universo simbólico. A inscrição se faz pela estrutura. Existem três caminhos possíveis: a via que vai pela NEUROSE, uma outra possibilidade a PSICOSE, e uma outra a PERVERSÃO.
A inserção do humano se dá por esses três caminhos. Por qualquer desses caminhos ele se humaniza – sempre na inscrição simbólica. Isto quer dizer que o ser falante encontra-se num desses três lugares (neurose, psicose ou perversão). Essa idéia é de extremo valor para se pensar todas as questões que concernem à clínica psicanalítica. Primeiro porque essa questão de normal e patológico cai por terra. Por que o que é ser normal? Normal é qualquer sujeito que fez uma escolha por qualquer um desses caminhos, cuja estrutura não se quebrou. Então o que chamamos de normalidade é qualquer dessas estruturas que não se quebrou. Enquanto a estrutura não quebra os seres humanos estão na estrutura chamada “normalidade”. Cada estrutura se quebra de uma maneira própria e tem pessoas que morrem sem a estrutura se quebrar. Freud certa vez escreveu: nem todas as pessoas que foram às guerras enlouqueceram. Quais as que enlouqueceram? Aquelas que na sua estrutura tinham um ponto vulnerável, e aquela situação foi suficiente para desencadear a quebradura daquela estrutura.
No mundo de hoje em que vivemos as exigências do cotidiano talvez favoreçam a que estruturas com seus pontos vulneráveis se quebrem. Existem sujeitos que dão mais sorte do que outros (porque alguns vivem toda a sua vida e a estrutura não se quebra, mas há outros que a estrutura se quebra muito cedo na vida e aí o sujeito tem que se haver com essa questão pela vida afora). Apesar de sabermos que toda estrutura tem um ponto vulnerável, não sabemos nunca o que é que a faz estrutura quebrar (se não se conhece as linhas de quebra não se pode saber como vai quebrar). Fica claro porém que todos nós temos um ponto na nossa estrutura que é vulnerável.
É por isso que não existe, em termos de doença psíquica, a psico-profilaxia. É claro que podemos saber que determinadas condições causam danos e podemos evitar essas condições, será muito bom, porém profilaxia e prevenção não existem (medicamentos não fazem prevenção).
A rigor, nada garante a eficácia de uma estrutura. Existem situações, em relação às quais nós não temos como enfrentá-las. Se tivermos a sorte de não nos depararmos com essa situação, essa estrutura se manterá. Portanto, o que chamamos de normalidade é um estado e este estado é temporário, apesar de ser um temporário que pode durar toda a vida do sujeito.

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